Espaço para Brasil de Bolsonaro fica estreito com Biden

ricardo102030 08/11/2020 Relatar Quero comentar

Não se sabe ainda como será a transição de poder nos Estados Unidos, mas a vitória de Joe Biden na eleição americana traz desafios particulares ao Brasil de Jair Bolsonaro. Na ditadura, o governo Geisel enfrentou percalços com o também democrata Jimmy Carter, pelo desrespeito aos direitos humanos. Agora, na democracia, o Brasil pagará o preço de Bolsonaro ter apostado abertamente em Donald Trump —e ter sido derrotado com ele

Os momentos históricos distintos são unidos por um ponto comum: a necessidade de uma estratégia diplomática bem formulada e executada. Bolsonaro precisará da reconhecida experiência do velho Itamaraty, posta de escanteio pelo chanceler Ernesto Araújo. Mas não só. O próprio figurino ideológico do bolsonarismo enfrentará pressões. 

No primeiro dos dois debates entre Biden e Trump, o democrata tocou num nervo exposto do bolsonarismo: o descaso com o meio ambiente. O futuro presidente americano acenou com um fundo de US$ 20 bilhões para ajudar na preservação da Amazônia e antecipou que baixará sanções econômicas caso tudo continue na mesma. Bolsonaro evocou os tempos de caserna, enrolou-se na bandeira e soltou um brado em defesa da “soberania nacional”. São palavras inócuas diante do desafio que Biden lhe trará.

Nenhuma das alterações no tabuleiro geopolítico depois da eleição joga a favor do Planalto. A Casa Branca de Biden se reaproximará dos aliados europeus tradicionais — como Alemanha e França — e, como anunciado, voltará ao Acordo do Clima de Paris, que Bolsonaro falou em abandonar em mais uma mímica de Trump. A defesa da preservação da Amazônia não é uma peça solta na política externa democrata. Servirá também para reerguer a Aliança Atlântica.

Liberdades democráticas, respeito aos direitos constitucionais, ao meio ambiente, defesa dos direitos humanos — temas relativizados, quando não desrespeitados pelo bolsonarismo — voltarão a servir de baliza para a diplomacia dos Estados Unidos. Também acabará o tempo de afagos americanos a autocratas como o húngaro Viktor Orbán (convidado de honra à posse de Bolsonaro) ou o russo Vladimir Putin. O governo brasileiro precisará se adaptar à nova realidade.

Nada será tão desafiador quanto a relação com a China, que ganhará novos contornos na gestão Biden. Para o Brasil, mesmo que possa haver mais espaço para uma decisão técnica sobre a telefonia celular de quinta geração (5G), persiste o desafio de, em nome do interesse nacional, equilibrar os acenos às duas superpotências, seus dois maiores parceiros comerciais. O choque entre elas continuará.

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