'O aborto sempre existiu na Argentina. Agora saiu do armário', diz ativista de 91 anos

Só matérias boas 30/12/2020 Relatar Quero comentar

A diretora de mestrado da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, Nelly Minyersky, de 91 anos, defende há pelo menos quinze anos a descriminalização e a legalização do aborto na .

Há quase 20 dias, ela passou quatro horas na tribuna da Câmara dos Deputados acompanhando o debate que terminou, no dia 11, com a aprovação do projeto de lei do aborto gratuito e voluntário no país. O texto será  e a expectativa é que seja votado na madrugada de quarta-feira.

Por normas de segurança da Câmara, Minyersky, convidada pelos parlamentares que apoiam a medida, fez um teste de PCR que deu negativo para o novo coronavírus, o que a permitiu acompanhar o que chamou de "sessão histórica" na casa.

"O aborto saiu do armário. Ele sempre existiu, mas o debate permitiu que esta realidade clandestina e que castiga as mulheres viesse à tona", disse a ativista em entrevista à BBC News Brasil. Ela espera que o projeto seja aprovado e que "influencie" toda a América Latina, onde muitas mulheres, afirmou, sofrem caladas e acabam "até algemadas".

Na América Latina, a Argentina passaria a ser o quinto país a permitir o aborto por decisão da mulher, ao lado de Uruguai, Cuba, Porto Rico e Guiana. No Brasil, o aborto é crime e só é permitido em casos de gravidez por estupro, de feto anencefálico e de a mulher correr risco de morte.

Ela se convenceu da necessidade de descriminalizar e legalizar o aborto nos vários anos em que trabalhou como advogada dos direitos da família.

"Foi com meu trabalho que fui vendo a importância da liberdade para as mulheres, a liberdade para escolher o próprio caminho. E o direito ao aborto é parte disso", disse.

Desde 2012 ela trabalhou na comissão que redigiu os projetos no Congresso. "É uma batalha longa. Em 2019, apresentamos o projeto número oito. Mas agora minha expectativa é que, finalmente, será lei", disse.

Dias antes de assistir ao debate na Câmara, a feminista tinha sido a primeira oradora nas comissões da Casa que discutiram o projeto do governo do presidente  que prevê a legalização do aborto até a décima quarta semana de gestação. O texto, chamado 'lei de Interrupção Voluntária da Gravidez' (IVE, na sigla em espanhol), prevê ainda que menores de 16 anos devem estar acompanhadas por um dos responsáveis ou referente afetivo. O projeto estabelece que o aborto deve ser gratuito tanto em hospitais públicos como privados.

Lenço verde

Mãe de dois filhos, avó de três netos e com dois bisnetos, Minyersky costuma usar um lenço verde, que simboliza a campanha pela legalização do aborto, no pescoço, no pulso ou na bolsa. A imagem no seu perfil no WhatsApp é a do símbolo da campanha que diz: 'Yo voto por el derecho a decidir. #Que sea ley' ('Eu voto pelo direito a decidir. #Que seja lei').

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